Havia uma poltrona em miniatura estofada com retalho de cortina velha. Quem a fez foi Grete Thomsen, no início dos anos 1940, como presente para a sobrinha. Não havia plano de negócio, nem visão de futuro — só habilidade manual e afeto. Mas o marido, Axel, achou que outros pais gostariam de comprar algo assim. Levou a peça ao armazém Ferdinand Lundquist, em Gotemburgo, Suécia. O pedido inicial foi de 350 coroas suecas.
Desse gesto improvisado nasceu a Lundby of Sweden: uma das fabricantes de casas de boneca mais longevas do mundo, em operação desde 1947, com colecionadores ativos em mais de 40 países e um lugar consolidado na história do design escandinavo em miniatura.
Lundby A inovação que Nenhum Concorrente Ousou Fazer
Durante anos, casas de boneca eram belas por fora e vazias por dentro — no sentido literal. Nenhum fabricante havia resolvido o problema da iluminação de forma segura para crianças. A Lundby resolveu.
Na década de 1950, a empresa desenvolveu um sistema elétrico próprio que operava a 4 volts, quando o padrão do mercado era 12 volts. A diferença não é apenas técnica: a 4 volts, o risco de choque ou incêndio em mãos infantis cai a praticamente zero. Cada cômodo da casa podia ser conectado à rede interna com um encaixe direto, sem ferramentas — uma solução tão simples quanto inédita para o setor.
Nenhum outro fabricante havia feito isso antes em escala de produção massiva. Essa decisão, por si só, posicionou a Lundby em outro patamar competitivo e gerou consequências diretas para o colecionismo: as peças com sistema elétrico original e funcional são hoje as mais disputadas. Encontrar uma casa dos anos 1960 com a fiação intacta, os conectores originais e as luminárias funcionando é o equivalente, no universo das miniaturas, a encontrar um relógio vintage com o mecanismo original sem restauração.
O que Tornava os Móveis Diferentes de Tudo o que Existia
A Lundby não criava estilos por capricho estético. Ela contratava arquitetos e designers de interiores suecos para desenvolver cada coleção de móveis — e a instrução era simples: reproduzir o que aparecia nas casas reais da Suécia naquele momento.
Isso gerou algo raro no universo dos brinquedos: um arquivo visual fiel do cotidiano escandinavo em escala 1:18. As estampas geométricas do papel de parede dos anos 1960, os móveis de linhas limpas em madeira clara, os pisos azul-claro dos modelos entre 1960 e 1964 — nada disso foi invenção de designers de brinquedos. Era o design escandinavo real, comprimido em miniatura com rigor de proporções.
A escala 1:18 foi mantida com disciplina ao longo de décadas, o que criou um ecossistema de compatibilidade: peças Lundby dos anos 1960 encaixam com produções da Barton, da Brio e da Dol-toi do mesmo período. Para o colecionador que monta cenários, isso multiplica as possibilidades sem quebrar a coerência visual da época.
De um Porão em Gotemburgo a 100 mil Casas por Ano
O crescimento da Lundby não foi gradual. Foi uma explosão contida.
Em 1948, o casal Thomsen saiu do porão da própria casa e se mudou para Lerum, cidade próxima a Gotemburgo, para acomodar a demanda. Em 1967, a empresa já havia produzido 35.000 casas, ganhou o prêmio de Melhor Brinquedo da Associação Sueca de Comerciantes de Brinquedos e era nome reconhecido em toda a Europa.
Na virada para os anos 1970, crianças em 20 países pediam Lundby no Natal. A produção chegou a quase 100.000 casas por ano, com fábricas distribuídas em 11 países.
Então vieram os anos 1980. Os brinquedos eletrônicos invadiram o mercado e as vendas de casas de boneca despencaram em todo o mundo. A Lundby tentou se expandir internacionalmente para compensar — e a expansão acelerada criou uma crise de superprodução que quase encerrou a empresa. Em 1997, a Micki Leksaker comprou os direitos da marca e retomou a produção dois anos depois, mantendo o design clássico da casa Göteborg e a filosofia original: móveis desenvolvidos com arquitetos suecos, escala rigorosa, atenção ao que as casas reais mostram em cada época.
O que a História da Empresa Explica Sobre o Valor das Peças
O encerramento de linhas inteiras nos anos 1980 e a interrupção da produção até 1999 criaram lacunas no catálogo que nunca serão preenchidas. Certas combinações de cor, certas versões de móveis de períodos específicos simplesmente não existem mais em quantidade suficiente para satisfazer a demanda atual. É essa escassez estrutural — não apenas a idade das peças — que move o mercado.
Uma casa Göteborg dos anos 1960 com mobília original, sistema elétrico funcional e caixa pode alcançar entre US$ 2.000 e US$ 5.000, dependendo do estado de conservação e da raridade dos itens incluídos. Lotes avulsos de móveis do período aparecem regularmente no eBay e no Tradera — o equivalente sueco do eBay, onde estão os maiores volumes de peças originais em circulação. Mercados de pulgas escandinavos, especialmente na Suécia e na Noruega, ainda produzem descobertas significativas para quem sabe o que procurar.
O principal risco é a confusão entre décadas. Modelos dos anos 1970 e 1980 são frequentemente listados como “anos 1960” — intencionalmente ou por desconhecimento.
A diferença de valor pode ser de dez vezes. Para não errar, os marcadores físicos dos modelos 1960–1964 são a única proteção confiável: chaminé alta de 1,7 polegadas (reduzida a 0,75 polegadas nas versões posteriores), escada de madeira com balaustrada completa, divisória no banheiro com porta separada e pisos azul-claro que desapareceram nas versões tardias da mesma década. Nenhuma plataforma de venda online faz essa verificação pelo comprador.
Uma Empresa que Sobreviveu a Si Mesma
Poucas fabricantes de brinquedos do século XX podem dizer que atravessaram fundação artesanal, expansão industrial, crise severa, mudança de dono e reinvenção — e chegaram ao outro lado sem perder a identidade.
A Lundby chegou. O que isso significa para o colecionador é que cada peça carrega camadas de contexto que vão além do objeto: a inovação técnica que ninguém tinha feito, o design que era espelho de um tempo real, a escala que foi mantida com rigor por oito décadas. Não é nostalgia — é documentação.
Uma poltrona estofada com retalho de cortina velha. Tudo começou com isso.




